O Crack e a Infraestrutura
A cidade de São Paulo desencadeou, no último dia 3 de janeiro e sem prazo definido para terminar, uma operação policial na “Cracolândia” da maior cidade do Brasil. O plano desta intervenção está dividido em três fases, onde estão envolvidos o policiamento ostensivo na região da “Cracolândia”, o encaminhamento dos dependentes de crack a Centros de Saúde e à Assistência Social e uma terceira fase de manutenção cujo objetivo principal será evitar o surgimento de novas “Cracolândias”.
Nestas primeiras duas semanas da operação, mais de 150 pessoas foram presas e outras 50 encaminhadas para hospitalização. Foram realizadas inúmeras abordagens sociais e por agentes de saúde. Chama a atenção que mais de 100 toneladas de lixo foram retiradas da região. A exposição pública do problema da dependência química de aproximadamente 600 habitantes da “Cracolândia” e da vida fácil dos traficantes de crack nesse território onde, segundo estimativas preliminares, a receita mensal com o tráfico chega até R$1.000.000,00 desencadeou uma polêmica intensa sobre o tema. Todos parecem ter opinião sobre a intervenção militar no centro da cidade de São Paulo. Promotores públicos, defensores públicos, moradores da região, movimentos sociais de direitos humanos e até os candidatos à prefeitura nas próximas eleições da cidade passaram a debater os aspectos positivos ou negativos da intervenção na “Cracolândia”. O que fica claro, e finalmente não pode mais ser negligenciado, é a gravidade do problema de saúde e segurança pública relacionado ao crack.
De acordo com um levantamento realizado pela Confederação Nacional dos Municípios, o Crack está presente em 90% das cidades brasileiras. O problema do Crack é nacional, exige a união de esforços e a articulação entre as áreas da saúde, da segurança e da assistência social. Exige uma política pública adequada que não escorregue em discussões intermináveis, em preconceitos entre os profissionais das áreas envolvidas ou em programas de combate ao crack que simplesmente não saem do papel ou são tecnicamente ineficazes.
Nos últimos anos, as prisões no Brasil se tornaram um lugar degradante e os leitos em hospitais psiquiátricos foram fechados. Sem vagas nas prisões para os traficantes e sem leitos para internação hospitalar especializada aos viciados graves, não iremos a lugar nenhum, pois não há como enfrentar o problema do crack. O investimento em infraestrutura é uma tarefa que exige consciência política, é um processo difícil e oneroso para a sociedade e que não traz resultados a curto prazo. Mas quando o trabalho de base é realizado adequadamente os resultados aparecem e são sustentáveis a médio e longo prazo.
Uma das origens da dependência química, que encontra nas drogas uma falsa sensação de prazer e alívio imediato para sintomas desconfortáveis, pode ser a ausência de “infraestrutura” emocional. A dependência do crack atinge pessoas vulneráveis em diversos níveis, como as portadoras de doenças mentais graves que necessitam de ajuda especializada para não vagarem pelas ruas e ficarem expostas à atuação de traficantes que exploram essas vulnerabilidades. Intervir nas “Cracolândias” espalhadas pelo Brasil e aumentar a disponibilidade de tratamento para os doentes mentais que sofrem com a dependência química é um desafio legítimo para os próximos anos.
Fernando Lejderman
Médico e Psiquiatra





